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Texto Athos

Talvez você devesse focar mais nos 99%

Por que perseguir o último 1% pode destruir tudo o resto

03 de fevereiro de 2026 · Matheus Valle

Existe uma crença bem estabelecida no esporte de que cada 1% importa. Todo mundo já viu campeonato decidido por menos de um segundo, um metro, ou qualquer medida que acabe fazendo a diferença. Treinadores, capitães e líderes vivem tentando extrair o máximo dos atletas com discursos tipo “tem que dar 120%”, pra arrancar mais uma repetição, mais um sprint, mais uma tentativa. O problema é que, nesse processo, os atletas costumam esquecer completamente dos outros 99%. E sim, eles vão além quase todo santo dia.

Ficam acordados até tarde estudando. Acordam cedo pra treinar. Dizem não pra família e amigos. Fazem de tudo que está ao alcance por aquele 1% extra e, sem perceber, abrem mão de todo o resto.

Esporte de alto rendimento é caro física, mental e socialmente, e a gente vive numa cultura que elogia esse tipo de sacrifício. Basta abrir as redes de qualquer atleta durante uma pré-temporada de descanso bem merecido, principalmente depois de um ano ruim. Passar tempo com quem se ama? Viajar? Jogar videogame? Como assim não tá treinando em tempo integral? Isso é o mínimo que se espera de quem ganha aquele salário, né?

Quando o atleta é colocado sob esse nível de escrutínio, fica fácil entender por que tanta gente topa abrir mão de tanta coisa só pra provar que está trabalhando. Só que cuidar da pessoa por trás do atleta é tão importante quanto o trabalho que ela entrega, especialmente lembrando que ser atleta é só uma parte de quem essa pessoa é.

Sono, cultura e o grind

Deixa eu usar meu querido esports como exemplo. Sim, videogame competitivo profissional.

Existe um problema bem conhecido no esports relacionado a horário de sono. Isso é cultural, profundo: boa parte da cena foi construída em cima de comunidades que jogavam a noite inteira nos anos 90 e 2000. Se você tem uns 30 anos como eu, provavelmente já virou pelo menos uma noite grindando um boss ou subindo de elo.

Conforme a cena evoluiu, os atletas e as rotinas deveriam ter evoluído junto. Só que, na prática, muitas vezes isso não acontece. Pesquisas mostram problemas consistentes de qualidade de sono, duração do sono e falta de educação sobre sono entre atletas de esports, com consequências potenciais pra recuperação e desempenho¹.

Agora combina isso com uma sociedade que glorifica sacrifício constante, e você tem uma cultura em que grindar de madrugada vira quase obrigação. Jogadores são frequentemente acusados de não jogar o suficiente. E mesmo sem entrar no tema sensível de atletas de esports se cobrando por mais tempo de jogo do que deveriam (já que o trabalho deles é majoritariamente cognitivo), só a falta de descanso adequado já é suficiente pra destruir completamente esses 99%.

O custo escondido de negligenciar o básico

Sono não é só sobre recuperação. É parte de como memórias de curto prazo viram memórias de longo prazo. Dormir tarde também significa acordar tarde, muitas vezes perdendo a luz solar do início da manhã, algo que o ser humano usou durante a maior parte da sua história pra regular trabalho e descanso.

Sono, alimentação e atividade física costumam ser as primeiras coisas que atletas de esports abrem mão em troca daquele 1% extra. Só que, paradoxalmente, é exatamente assim que eles destroem os outros 99%.

Cada esporte e cada atleta tem a sua própria versão desses 99%. Na maioria das vezes, eles têm a ver com a vida fora do esporte. Às vezes estão dentro do próprio treino. Já vi atleta investir quase tudo no desenvolvimento técnico enquanto negligencia os aspectos táticos e mentais do desempenho.

Soluções fáceis, evidência fraca

Outra camada do problema é que existe um mercado inteiro construído em cima de soluções fáceis. Mesmo quando o atleta está ciente dos riscos de negligenciar partes de si mesmo, atalhos são oferecidos o tempo todo, sempre com um custo.

Ainda usando sono como exemplo, atletas que querem melhorá-lo costumam ser empurrados pra soluções como óculos que filtram luz azul ou melatonina. A evidência científica que sustenta essas estratégias é fraca ou, no máximo, modesta, principalmente quando comparada com abordagens comportamentais estruturadas²ᐟ³.

O que a evidência realmente sustenta

A evidência aponta, na verdade, pra intervenções que exigem mais esforço e envolvimento. Diretrizes clínicas recomendam de forma consistente abordagens comportamentais e cognitivas, incluindo higiene do sono como base e terapia cognitivo-comportamental para insônia como tratamento de primeira linha⁴.

Nenhuma dessas opções é tão fácil quanto colocar um óculos ou tomar uma pílula. Elas exigem esforço e envolvimento, o que normalmente significa dar um passo pra trás naquele 1%.

Quero deixar bem claro aqui: o problema não é o atleta que recorre a esses atalhos. Ele não deveria precisar navegar isso sozinho. Atleta deveria poder confiar nos profissionais ao seu redor pra ser guiado com a melhor evidência disponível. Minha esperança é simplesmente que quem está lendo isso esteja cercado de gente com essa responsabilidade ética.

Proteger os 99% é a vantagem real

Perseguir aquele 1% extra parece heroico. Fica bonito em foto. Soa bem em entrevista.

Mas a maioria das carreiras não acaba porque alguém deixou de espremer um pouco mais de esforço de si mesmo. Elas acabam porque os outros 99% desabaram em silêncio. Saúde. Relacionamentos. Aprendizado. Alegria. Consistência.

Desempenho sustentável não é sobre fazer mais a qualquer custo. É sobre saber o que não sacrificar.

Talvez a vantagem competitiva de verdade não seja mais uma madrugada acordado, mais uma refeição pulada ou mais uma repetição feita no talo.

Talvez seja ter a coragem e a disciplina de proteger os 99% pra que o 1% realmente importe.

E, como sempre: se você é atleta e está lidando com dificuldade na saúde mental ou no desempenho, sinta-se à vontade pra entrar em contato.

Sem promessa. Sem solução mágica. Só trabalho sério, honesto e baseado em evidência rumo ao próximo passo.

Até a próxima, Matheus.


Referências

  1. Bonnar D, Bartel K, Kakoschke N, Lang C. Sleep interventions designed to improve athletic performance and recovery: a systematic review of current approaches. Sleep Health. 2019;5(4):318–330.
  2. Shechter A, Kim EW, St-Onge MP, Westwood AJ. Blocking nocturnal blue light for insomnia: a randomized controlled trial. Cochrane Database Syst Rev. 2023;12:CD013244.
  3. Ferracioli-Oda E, Qawasmi A, Bloch MH. Meta-analysis: melatonin for the treatment of primary sleep disorders. PLoS One. 2013;8(5):e63773.
  4. Edinger JD, Arnedt JT, Bertisch SM, Carney CE, Harrington JJ, Lichstein KL, et al. Behavioral and psychological treatments for chronic insomnia disorder in adults: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. J Clin Sleep Med. 2021;17(2):255–262.